Bem-vindo ao nosso 23º Café da Manhã!

A escrita tem o poder de curar e libertar; a criatividade, de despertar e seduzir. Ao somar escrita e criatividade, uma vez que já se tenha compreensão da relevância do autoconhecimento na construção do texto, tem-se como resultado uma ferramenta terapêutica poderosa no ensino de produção textual. Cônscio desse processo, desenvolvi um método de ensino que permite ao aluno não só aprimorar sua habilidade de escrever com coesão, coerência e respeito à norma culta, mas que também potencializa a sensibilidade e o poder criativo para lidar com o caos e os diversos bloqueios inerentes ao indivíduo ou à censura imposta a ele ao longo do processo educacional.

A esse método de ensino voltado à escrita, desenvolvido ao longo de quase duas décadas, dei o nome de Método COR. Segundo Raulino Bussarelo, “a palavra latina cor (ou cordis) designava: coração, alma, inteligência”. Associei, dessa forma, o nome à fonte de inspiração: um conselho dado por Raine Maria Rilke a um jovem poeta. Em resposta a uma carta na qual o jovem almejava por críticas aos seus versos, Rilke disse que a escrita sempre vale a pena quando vier, realmente, de dentro, do mergulho em si mesmo. Ou seja, é preciso que o aluno se permita e sinta o ritmo que vem do coração, sem se deixar levar por elucubrações ou pelo fantasma das críticas, as quais não passam de mal-entendidos mais ou menos afortunados.

Só assim, libertando-se das amarras, o indivíduo viverá plenamente momentos de aura clara no ato da escrita. Por conseguinte, despertará em si uma consciência criativa – ou autoconhecimento – e seduzirá, enfim, seus leitores. Logo, com o objetivo de conduzir o estudante a essa plenitude, articulei três pilares para alicerçar o método: Sensibilidade-Criatividade, Linguagem-Repertório e Estrutura-Estética.

Vale ressaltar que, ao se desenvolver um sistema de ensino, mesmo que se criem práticas a serem utilizadas de forma única com todos os alunos, é preciso partir do princípio de que cada indivíduo tem o seu processo criativo. E é por esse motivo que o Método COR, composto por três pilares, tem como característica primordial práticas terapêuticas e atendimento personalizado, para que possam ser respeitados o histórico educacional e os anseios individuais. Tal característica, por exemplo, encontra-se no primeiro pilar do método – Sensibilidade-Criatividade, o qual busca despertar o autoconhecimento e desbloquear os canais criativos do estudante. Neste primeiro momento, portanto, o professor-terapeuta, além de estabelecer uma relação de confiança, deve criar uma terapia para cada estudante-paciente.

Ao perceber, então, que o estudante já se sente seguro e desenvolto no ato de escrever, o professor poderá apresentar o segundo pilar – Linguagem-Repertório, cujas caraterísticas residem no domínio da norma culta, na multiplicação de ideias e na ampliação e conexão de repertório científico-cultural. É por meio dessas características que o estudante desenvolverá um texto com identidade e, ao mesmo tempo, construirá a possibilidade de diálogos com outros autores, sem precisar, necessariamente, reproduzir clichês ou noções generalizantes.

Após o aprimoramento da linguagem e a internalização do repertório, revela-se ao estudante o terceiro pilar – Estrutura-Estética – do Método COR. É o momento de se alinhar a prática às teorias – sejam de textos não-literários, como a reportagem; sejam de literários, como o poema – previamente descritas e elucidadas. Depois destes ajustes acerca das diferenças entre textos literários e não-literários, amplia-se o estudo, explicitando ao estudante os tipos textuais, como descrição, narração e dissertação, e os gêneros textuais, como carta, romance e publicidade. Dessa forma, o aluno poderá adequar as suas ideias e o repertório já internalizado ao tipo e ao gênero textual que valorizem o que ele tem a dizer.

Em seguida, dá-se atenção especial à embalagem, em outras palavras, à apresentação do texto. Afinal, não podemos negar que, na maioria das vezes, o ser humano julga o livro pela capa, isto é, avalia o texto pela maneira como é organizado e formatado, com relação à letra, às margens e aos parágrafos, por exemplo. Neste ponto, alguns professores poderiam se questionar sobre a sequência didática e trazer à tona a seguinte pergunta: por que não começar com o terceiro pilar, Estrutura-Estética? E ainda afirmariam, sem esperar resposta, que a Metodologia Científica é uma disciplina introdutória nos cursos de Licenciatura e que a maior parte dos livros didáticos apresenta aos estudantes, primeiramente, tipos e gêneros textuais e, somente depois, temas para leitura e discussão. O fundador do Teatro de Arte de Moscou, Stanislavski, diria que “a essência da arte não está nas suas formas exteriores, mas no seu conteúdo espiritual”.

Defendo, pois, que o ensino de produção textual seja uma arte de promoção do autoconhecimento. Logo, a busca pelo “conteúdo espiritual” de cada um é que será a principal mola propulsora no processo relacionado ao ato de escrever. Assim, em meio a esta sensação de liberdade, sem a preocupação inicial com formatos pré-estabelecidos, o espírito transbordará e deixará o exterior, ou embalagem, ainda mais brilhante e sedutora. O Método COR – sistema terapêutico personalizado de escrita criativa – traz à tona uma discussão necessária na atualidade, uma vez que dar atenção aos anseios e às dificuldades individuais na produção textual, numa sociedade do conhecimento moldada pela padronização do sistema educacional contemporâneo, deveria ser prioridade nos planejamentos pedagógicos.

Portanto, ao longo de qualquer processo no qual se vise à evolução e ao aprimoramento do educando, é imprescindível, para que se obtenha êxito, estabelecer uma relação de confiança, de liberdade e de compromisso entre professor-terapeuta e estudante-paciente. Só assim se poderá extrair do indivíduo a sua verdadeira essência e conduzi-lo, em segurança, a um novo cenário, onde ele assuma a responsabilidade de criar a sua própria realidade.

Mais um gole de Café, e até a próxima segunda-feira.

Prazer, Pablo.

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